Tartarugas Ninja | Como uma HQ independente se tornou um fenômeno da cultura pop

Publicado em 22/05/20 19:00

Mais de 30 anos após sua criação, é impossível separar as Tartarugas Ninja do DNA da cultura pop. O quarteto chegou ao patamar de clássico com o impressionante feito de marcar gerações de diferentes formas. Há os que leram os quadrinhos, os que curtiram o desenho animado clássico, os fãs dos filmes dos anos 1990, os que passaram tardes jogando os videogames ou mesmo os que foram conquistados pelos live-actions produzidos por Michael Bay. Se tornou quase impossível passar batido pelos "heróis em meio casco", uma façanha e tanto para uma franquia que começou pela iniciativa de dois quadrinistas independentes em criar algo para homenagear as histórias que liam na infância.

Tanto Kevin Eastman quanto Peter Laird tinham o grande sonho de viver de HQs como seus heróis da infância. Trabalhando em projetos que nunca foram para frente, a dupla chegou à inusitada ideia de uma tartaruga com habilidades ninja quando Eastman desenhou uma delas com nunchakus amarrados nas patas apenas para irritar Laird, que por sua vez resolveu criar uma versão própria. O processo foi rolando até que eles chegaram a um quarteto que combateria o crime sob o título de “Teenage Mutant Ninja Turtles”, algo como Tartarugas Mutantes Adolescentes Ninjas, em tradução livre. Com uma tiragem modesta de pouco mais de 3 mil exemplares, o quadrinho se tornou um sucesso que cresceu pelo boca-a-boca dos leitores, gerando uma segunda tiragem de 15 mil cópias. Mesmo com a presença muitos de seus elementos clássicos - como os quatro heróis com nomes de artistas renascentistas, seu mestre Splinter e até o vilão Destruidor -, a primeira encarnação do grupo era bem diferente do bando bem-humorado e descolado que conquistou crianças e adultos no futuro.

As primeiras histórias das Tartarugas Ninja são definitivamente adultas. Ainda que seus criadores citem inspiração em Jack Kirby, quadrinista responsável por criar boa parte dos grandes heróis da Marvel ao lado de Stan Lee, é na fonte de Frank Miller que a dupla mais bebe. É possível perceber homenagens à obra do quadrinista conhecido como um dos arquitetos da “Era Sombria” dos quadrinhos, tanto em seu roteiro cheio de ação e violência, quanto esteticamente, com quatro tartarugas que não deixam nada a dever a Demolidor, Batman ou Wolverine no quesito porradaria e pose. Porém, é importante ressaltar que é falsa a ideia de que todo o mérito pelo carisma do grupo venha da série animada que atenuou a violência e adicionou humor. Ainda que mais sérias e voltadas ao público adulto, as HQs de Eastman e Laird criaram uma interessante mitologia que conferiu carisma e estilo à uma mistura única de referências.

Montagem reunindo imagens das Tartarugas Ninja e de Demolidor e Wolverine
Reprodução/Miracle Studios;Reprodução/Marvel Comics

A popularidade das Tartarugas Ninja explodiu de verdade em 1987, com o lançamento do desenho animado que fez uma série de alterações na obra original. Além de abandonar o clima noir e a violência para se adaptar ao público infantil, a produção criou identidades distintas para os irmãos, que originalmente utilizavam faixas vermelhas e podiam ser distinguidos apenas por suas armas. Na animação, eles ganharam faixas coloridas, cintos com suas iniciais e especialmente personalidade. Leonardo se tornou o líder destemido, Rafael o encrenqueiro impulsivo, Donatello o guerreiro inteligente e Michelangelo o adolescente engraçadão. Porém, o desenho animado só foi possível graças à empreitada de uma antiga fábrica de brinquedos de Hong Kong.

Fundada no final dos anos 1970, a Playmates Toys tentava a todo custo entrar no mercado norte-americano para competir com marcas consolidadas como Mattel e Kenner. Para isso, faltava uma franquia que despertasse o interesse de crianças mais crescidas, e foi aí que entraram as Tartarugas Ninja. Na verdade, foi aí que entrou Mark Freedman, um empresário iniciante que tentava transformá-las em action figures. Recusado pelas grandes fabricantes, ele abordou a Playmates, que por sua vez acreditou no projeto a ponto de investir dinheiro não apenas para o lançamento dos bonecos, mas também na criação de um desenho animado que apresentasse seus produtos para as crianças - já que as sangrentas HQs estavam fora de cogitação.

Consciente de que o projeto tinha que ser atrativo para os jovens, a equipe do MWS Studios fez diversas alterações, adicionando cores, humor e pizza às aventuras do grupo. Exibida poucos meses antes de os bonecos chegarem às prateleiras, o desenho animado foi um sucesso estrondoso que durou 10 temporadas, chegando ao fim em 1996. Muito de seu triunfo é creditado à contagiante canção-tema que foi escrita por ninguém menos do que Chuck Lorre, criador de séries como Two and a Half Man e The Big Bang Theory. Como esperado, o sucesso na TV se converteu em vendas, o que fez com que a Playmate expandisse a linha não apenas com novos inimigos, veículos e cenários, mas também com versões alternativas das Tartarugas, que ganharam trajes de samurai, baseball e até de férias. Porém, Mark Freedman queria ir adiante e apostou todas as fichas em um filme live-action da equipe.

Lançado em 1990, As Tartarugas Ninja foi um sucesso estrondoso. Com uma história que reuniu a diversão bem-humorada do desenho animado com uma atmosfera mais sombria das HQs, a produção brilhou pela forma como deu vida às Tartarugas. Graças à um magistral trabalho de Jim Henson, gênio dos efeitos especiais responsável por produções como Os Muppets e Família Dinossauro, os ninjas eram não só ágeis para as cenas de ação, mas também carismáticos, com expressões faciais que davam não apenas verossimilhança, mas humor ao quarteto.

Com uma distribuição recusada por gigantes como Disney, Columbia e MGM, o filme chegou aos cinemas através da iniciante e independente New Line Cinema. Com um orçamento de aproximadamente US$ 13,5 milhões, o filme lucrou mais de US$ 200 milhões, se tornando o longa independente mais bem-sucedido da época e amplificando o sucesso que a franquia experimentava há anos. Em entrevista à série Brinquedos que Marcam Época da Netflix, o vice-presidente de marketing da Playmate Karl Aaronian revelou foram vendidas mais de 100 milhões de unidades de bonecos das Tartarugas Ninja no ano em que o longa chegou aos cinemas. Para fechar a era de ouro para as Tartarugas Ninja, em 1991 a Konami lançou Teenage Mutant Ninja Turtles: Turtles in Time, quarto jogo da franquia nos videogames, que entrou para a história como um dos melhores arcades de todos os tempos.

Foto do filme das Tartarugas Ninja de 1990
Divulgação/New Line Cinema

Não é exagero dizer que esse foi o auge das Tartarugas, um patamar que durou muito tempo, com novos filmes, videogames, quadrinhos e até uma série live-action produzida pela Saban. Ainda que tenha desagradado boa parte do público, a produção tem um dos momentos mais queridos pelos fãs: o clássico crossover com os Power Rangers no Espaço. Desde então, as Tartarugas Ninja ganharam reboots tanto nos cinemas quanto na TV e se mantém até hoje como uma das mais queridas equipes da cultura pop. Dentre as obras mais importantes nos últimos tempos estão os recentes filmes em live-action produzidos por Michael Bay. Ainda que as produções não sejam obras-primas, elas mostra como a marca segue relevante. O quarteto ainda ganharia um crossover com o Batman, encontro que começou nos quadrinhos e virou uma elogiada animação lançada pela Warner em parceria com a Nickelodeon. Ainda que suas histórias não tragam praticamente nenhuma fidelidade com os animais que as inspiram, é possível afirmar que sua importância na cultura pop terá uma vida tão longa quanto os quelônios que habitam este planeta.

As primeiras HQs das Tartarugas Ninja estão sendo republicadas no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim. Os dois primeiros filmes podem ser assistidos no Amazon Prime Video, já o terceiro está disponível para streaming na Netflix, assim como o reboot de 2014 e a série live-action da Saban.

Fonte: Omelete // Gabriel Avila